É uma Espécie de História de Amor

June 2, 2016 Textos 0 Comments

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Ontem escrevi um pequeno texto no Facebook sobre a impossibilidade de se voltar atrás na vida. Decisões que fazemos que nos marcam para sempre, pequenas palavras que mudam o rumo dos acontecimentos de uma maneira que nunca poderíamos prever. Isto é especialmente verdade para quem viaja: na estrada tudo tem mais impacto, as amizades, as conversas, as gargalhadas, os momentos de solidão, a tristeza que surge como uma nuvem que subitamente tapa o sol.

Também nos marca de um modo muito mais profundo o regresso a casa. Lembro-me de cada um deles como se fosse hoje, fica-se com uma sensação que nós mudamos e continua tudo na mesma. Uma semana, um mês ou seis mudaram-nos de uma forma que não poderia acontecer se continuássemos em casa. Duvido que seja possível voltar a casa e continuar a ver a rotina, as conversas com a família, as amizades e até as relações (mais ou menos) amorosas da mesma maneira.

Contudo, como em todas as boas histórias, aqui também há um twist. Em momentos muito raros somos transportados para um outro local, para uma outra realidade, momento esse digno de Inception. Talvez devido à sua raridade, ou pela força que têm em si é que são raros. Tudo muda, um súbito momento de saturação.

Carta do Pres. Bruno de Carvalho aquando do meu convite para a apresentação do 10 Mil Milhas.

Carta do Pres. Bruno de Carvalho aquando do meu convite para a apresentação do 10 Mil Milhas.

Um desses momentos aconteceu-me em finais de Outubro de 2013, estava eu em Toronto. Lembro-me desse dia como se tivesse sido a manhã do dia de hoje. Sentado num Starbucks na intercepção de College e Younge, com uma ressaca monstruosa em cima dos ombros e com a cabeça em água, não conseguia depositar uma palavra sequer no caderno aberto à minha frente. Só tinha bebido um café e um bolo de canela, – sim, porque 50 cêntimos numa viagem de 3 meses, podem significar o mundo todo-, e quando olho para o relógio é quase uma da tarde. Estava atrasado.

Entrei no metro e segui até à estação de Dupont. Pelo que tinha visto no mapa a distância era de pouco mais de 20 minutos, mas claro, a América é a América e a distância europeia é muito diferente, até para o Google Maps. Caminhei pelos subúrbios de Toronto que nenhum viajante conhece, casas siamesas, iguais e com pouca vida: jardins mal aparados, sofás depositados nos becos entre si e ainda apanhei aquele estereótipo, que é sempre delicioso de ver: um homem de manga caviada, a beber uma cerveja, enquanto se refastelava na sua bela cadeira de baloiço. Não percebo como conseguia estar apenas com uma caviada, pois a temperatura andava nos 5º graus.

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Suburbios de Toronto, na peregrinação à casa do Sporting

Andei mais e mais e mais, aquela rua parecia não ter fim. Acabaram-se as casas e passei por stands, lotes industriais abandonados, sem-abrigos a empurrar carrinhos de compras e voltaram as casas. Estava no número 400 e pouco e tinha que caminhar até ao 1650. Já tinham passado quarenta minutos e chegava aquele momento de desgaste simultâneo, sentia fome, cansaço, sede e vontade de dormir.

Continuei e acabei por passar pelo primeiro sinal de Portugal, um restaurante “O Alentejano” cá fora estava um grupo de seis ou sete homens, todos eles vestidos como qualquer homem de meia-idade português se veste, calças ligeiramente vincada e camisa aos quadrados. Perguntei-lhes se sabiam onde era o núcleo do Sporting, discutiram entre eles deixando-me de fora da conversa. Era em frente, só não se entendiam quanto à distância. Agradeci-lhes e desmarquei-me da discussão, em frente, siga!

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Andei mais um pouco e ao fim de 10 minutos lá estava. Eu não costumo ter momentos de catarse, mas no que me parecia uma peregrinação, ver o leão rampante sobre o escudo verde foi um momento especial. Caminhei com um novo vigor, entrei e se estava à espera de uma sala de café, fiquei em choque. O salão era do tamanho de um pavilhão desportivo e com todas as luzes apagadas o altar colectivo daquelas 200 ou 300 pessoas era o jogo do Sporting Clube de Portugal.

Ali só se falava português, só se bebia “português” e só se respirava Sporting. Fiquei impressionado. E foi quase no final da primeira parte, que Montero mete a primeira lá dentro e o salão explode. Vai para intervalo e expiramos de alivio, fazemos conversa, perguntam-me se estou lá para ficar e sou forçado a contar a minha viagem e para onde vamos a seguir, que a este ponto já era uma conversa que evitava ter. Começa a segunda parte e são mais três que entram.

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Apesar de ter sido um jogo sem uma grande importância estratégica para o Sporting, eu senti aquele jogo como se todos os meus sucessos pessoais dependessem dele. O interruptor verde ligou e a partir desse dia a minha relação com o meu clube de sempre estreitou-se de uma maneira inexplicável. No final do jogo senti lágrimas de contentamento e não conseguia perceber o porquê. O futebol é assim, o amor é assim.

Durante a minha vida já vibrei muito com o Sporting, já chorei de alegria e também de tristeza, já deitei as mãos à cabeça porque não conseguia acreditar no que estava a acontecer e também estive lá nos momentos mais negros para voltar a ver a luz ao fundo do túnel. Como poderia esquecer de aos 10 anos ver aquele jogo em Vidal Pinheiro e aquela equipa de sonho, Acosto e Beto e Schmeichel e Duscher e André Cruz a sagrar-se campeã. Chorei como nunca tinha chorado na vida. Dois anos mais tarde sucede-se a mesma alegria, mas desta vez menos explosiva, porque o título era uma garantia mais dada. Nesse mesmo verão visitei o antigo José de Alvalade e saquei autógrafos a todos os jogadores depois do treino, acho que ainda apareci num jornal a cumprimentar o Quiroga.

Também recordo ter-me atirado para o chão com a cara em lágrimas e o peito em convulsões depois de Miguel Garcia saltar mais alto que todos e nos empurrar para a final no último segundo, do último minuto do jogo em Alkmaar. Pouco tempo depois fui ver o primeiro jogo ao novo José de Alvalade e que jogo, 2-1 ao nosso rival e uma emoção que me fez sentir no topo do mundo. O outro grande momento de ruptura emocional só veio passado alguns anos, culpa minha: entrar para a faculdade, diversão, começar com esta coisa das viagens e desliguei-me.

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Autocolante do Sporting, encontrado no bairro de Metelkova, em Ljubljana, nas Eslovénia.

Foi só depois de voltar a Portugal passados seis meses de exploração pelos Balcãs e por toda a Europa que voltei a vibrar como um louco. Imagina isto: três Sportinguistas na rua de Cedofeita, no coração da cidade do Porto, amigos entre si há mais de 20 anos e com o Sporting a uni-los. E que jogo foi? Pois aquele modesto jogo em que mandamos o Manchester City para casa e seguimos em frente. Escusado será dizer que viramos o restaurante de pernas para o ar e só não se partiu nada por sorte. Depois disso seguiram-se muitos jogos em Alvalade e fora de casa, quase sempre a vencer, quase sempre com um sorriso nos lábios e com momentos tão marcantes como o jogo em casa contra o Maribor para a Champions ou estar lá quando o Nani saca aquele golo do outro mundo contra o Gil Vicente.

No jogo Sporting vs Maribor, para a Champions

No jogo Sporting vs Maribor, para a Champions

E se aí a minha ligação tinha sido reposta, foi naquela peregrinação pela zona de Dupont, em Toronto que tatuei a verde e branca a ferro quente no coração. Nesse momento não estava na América do Norte há um mês, não, nesse momento estava de volta a casa, rodeado de pessoas que amam tanto o leão rampante que mesmo do outro lado do mundo, muitos sem terem regressado à pátria há mais de dez anos, gritaram em fervorosa devoção a sua honra e paixão ao Sporting.

Quem é do Sporting não usa aquele argumento patético que é de um clube porque “é o que ganha” ou “é o da minha cidade”. Nunca ouvi um Sportinguista a dizer que é do Sporting porque é o segundo clube com mais títulos a nível europeu, o porque é do Sporting porque é dos poucos clubes que formou 4 Bolas de Ouro, ou porque tem a melhor academia de formação do mundo ou porque o melhor jogador do mundo é do Sporting. Apesar de tudo isso sempre ouvi os Sportinguistas a defender a verde e branca com uma paixão única, com uma classe própria, igualmente orgulhosa e estóica, com uma certeza própria que caracteriza os grandes. Só ouvi Sportinguistas a dizer que são do Sporting porque é um sentimento inexplicável, algo que os transcende…

Há quem lhe chame amor. Eu concordo.

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Para ler mais sobre a minha viagem à América do Norte, podes adquirir o livro aqui: 10 Mil Milhas.

Texto escrito por: João M. Fernandes