Paralelismos em Viagens de Comboio

May 20, 2016 Textos 0 Comments

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Se há uma estação com que tenho uma ligação especial é com St. Apolónia. Lembro-me como se fosse hoje a primeira vez que lá desembarquei sozinho, vinha de uma viagem de 22 horas desde Paris a bordo do lendário Sud Express. Vinha de uma viagem trans-europeia de comboio, desde Budapeste e a passar por Praga, Berlim, Amesterdão, Bruxelas e Paris até chegar à plataforma 3 de Santa Apolónia. Desde então muitas mais vezes lá cheguei, umas sozinhas, outras com companhia.

Hoje ao preparar-me para embarcar com destino ao Porto e conforme caminhei por essa mesma plataforma, tive uma espécie de flashback, não para essa memória em Março de 2012, mas sim para a estação de Hua Lamphong, em Banguecoque. É uma associação estranha, porque têm muito pouca a ver uma com a outra, tirando o cheiro a gasolina e aquela fragrância, por vezes não muito agradável, própria de comboios e estações.

Nesse dia iria partir da capital tailandesa para Chiang Mai, umas catorze horas para norte e às 7 da manhã já estavam uns 32 graus. Acordei, tomei um duche rápido, comi o pequeno-almoço no hostel, cruzei os poucos quarteirões da Chinatown e em menos de quinze minutos a caminhar estava na estação… e também estava a escorrer suor pela testa e também estava a precisar de um novo duche e também já estava exausto.

Ali, a esconder-me na pouca sombra disponível, olhei pela primeira vez para a Lia e para o Filip. Para ter a certeza que era naquele comboio em que tinha que ir, perguntei-lhes se o expresso de Chiang Mai partia naquela linha. Ela disse-me que sim. O comboio atrasou e ninguém sabia quando poderia chegar, os tailandeses que esperavam punham-se de cócoras e pousavam a cabeça nas mãos, com os cotovelos pousados nos joelhos, fazendo uma espécie de jogo losangotudinal.

Não falei com ninguém durante a viagem, exacto durante 12 horas. Li, ouvi música, comi, enganei-me e fingi que ia dormir, olhei para paisagem de floresta tropical e escrevi algumas coisas. Foi só mesmo à chegada de Chiang Mai que voltei a falar com eles e que soube que ainda não tinham sítio para ficar. Perguntaram com descontração se podiam ir comigo e ver se o hostel para onde ia tinha camas livres. Disse-lhes logo que sim e sem saber como um man de peles escura e de lenço árabe juntou-se a nós. Para dizer a verdade fiquei um bocado stressado com ele e só quando soube que era da Nova Caledónia e apaixonado por ópio é que consegui relaxar. (Obrigado preconceito).

Entretanto ele abandonou-nos quando chegamos à entrada principal da cidade, ia para um hostel (ainda) mais barato onde só ia pagar 70 cêntimos por noite, sabia que as condições eram bastante más, mas preferia lá ficar. Não o voltei a ver nos dias em que estive em Chiang Mai. E foi logo quando chegamos ao hostel que tudo ficou um pouco estranho, a dona do hostel que era do Laos, confundiu o que a Lia lhe tinha perguntado e disse olhando para nós os dois: “Nós aqui não temos quartos privados, porque não reservaste logo para a tua namorada também?”

Claro que nos rimos daquilo, mas senti que o Filip ficou logo pouco à vontade ao sentir-se excluído e algo mais, senti aquele ciúme que se sente quando se associa a rapariga de quem gostamos a outro gajo, mesmo que não faça qualquer sentido. Dali fomos os três jantar e seguimos para um bar, que tentava recriar ao máximo um pub irlandês, apesar de estarmos em Chiang Mai e também ser propriedade de imigrantes do Laos. Foi portanto nesse bar que as coisas ficaram decididamente estranhas… Fui eu a fazer-lhes uma pergunta, algo inocente e fruto da minha curiosidade, mas a resposta dos dois foi de tal forma divergente que cortou a energia como uma faca quente passa manteiga. Olhei para baixo e escondi o sorriso no copo de cerveja que levei à boca. Mas o que foi verdadeiramente revelador foi que a Lia sorriu para mim, aquele sorriso que as mulheres fazem quando gostam do que está a acontecer… e eu sabia que isso eram más notícias.

Não vale a pena contar o que aconteceu a seguir, digamos só que ainda hoje tenho um hintergedank sobre o que aconteceu a seguir a eles terem saído de Chiang Mai para Pai. Também não escondo o embaraço que senti quando nos encontramo-nos no terceiro dia de manhã a tomar o pequeno-almoço naquele beco sem saída onde ficava o hostel. Era óbvio que ele gostava dela, mas eu só um ser humano e gosto de quando gostam de mim. Não tentei fazer conversa, porque afinal não havia nada sobre que falar, mas também não estava confortável com a situação e aposto que ele me queria fazer passar a cabeça pela porta.

Não o censuro.

E sim, foi desta maneira que começou a minha estadia em Chiang Mai, foi assim que me lembrei de escrever sobre isto, só porque ao olhar para a plataforma das linhas de St. Apolónia me veio um sentimento do que foi aquele momento em Banguecoque, num calor abafador e que derretia o próprio alcatrão, em que fiz a pergunta mais normal do mundo, sem prever as consequências que teria um dia mais tarde. (Literalmente um dia mais tarde, não estou a dizer isto duma maneira filosófica a apontar para um dia longínquo e desconhecido, mesmo no dia a seguir.)

Espero bem que tenham continuado a viajar e ainda sejam amigos. Afinal a amizade supera tudo, certo?