Moscovo, em Diferido

April 11, 2016 Textos 0 Comments

20151113_101255

Moscovo… que cidade incrível!

Para um licenciado em História esta cidade aproxima-se de um orgasmo mental. Os sentidos explodem, é demasiado para absorver, principalmente quando estás acordado há 30 horas seguidas. Isso confundo-me ainda mais e mistura-se com o sentimento de profundo respeito. Mesmo assim este é um local incrível.

É fácil esquecer que Moscovo é a capital da Federação Russa, do Leste, o local de Czars e czares vermelhos, nunca totalmente europeia, nunca totalmente oriental, é o meio caminho que cria uma amalgama fascinante de sociedade.

A minha reacção mal saí do comboio foi simples: que cambada de idiotas. Os russos não gostam de fazer muitos favores e quanto menos os perturbares melhores eles estão. Eles não querem saber de ti, eles não querem saber de mais ninguém a não ser deles próprios. Ninguém segura a porta a entrar no metro para a pessoa de trás, ninguém diz Spassiva quando recebe o café que pediu, conduzem como autênticos lunáticos e nunca vi um russo com vontade de ajudar outro. Claro que isto tudo é uma generalização.

Contudo, são estranhamente prestáveis. Fazem aquilo que lhes pedes, apesar de mostrarem má cara, não quererem saber de um obrigado para nada e o facto de seres estrangeiro é igual ao de seres um paralelo da estrada. É verdade, por exemplo, ao estar aqui há 15 horas o empregado da franchise pirata de leste do Dunk’n’Donuts saiu detrás do balcão, arranjou-me uma mesa ao pé de uma tomada e ainda perguntou se tinha carregador para o telemóvel. O mais engraçado é que fez tudo isto e foi tão expressivo como imaginamos um soldado russo numa parada militar na Praça Vermelha, mesmo ali ao lado. Eu até compreendo a cena deles, são um povo que não está habituado a pedir ajuda e deve ser por isso que eles vêm o resto do mundo como uns mariquinhas. Eu não me importo com isso.

20151113_111305

É difícil dizer aquilo que sinto perante Moscovo: adoro e ao mesmo tempo causa-me algum ódio, porque sei que nunca seria capaz de viver aqui, – mesmo que para isso precisasse de ter dinheiro que não tenho. Há algo na maneira de ser das pessoas que me repudia, a “maneira de ser russa” é demasiado estranha para mim, o pensamento é tão díspare que não encontro pontos comuns… Este é o povo que foi moldado no frio, no escuro dos seus rigorosos Invernos, de ditador atrás de ditador, vítima dos seus tiranos e de uma fome e guerra que nunca pararam. Eu compreendo, mas não vejo como poderia um dia deixar de querer saber dos outros e tornar-me indiferente a quem está à minha volta.

Mas ao mesmo tempo, por amor de deus… isto é Moscovo! Esta é a cidade que se queres visitar tens que pedir um Visto de entrada tão difícil de obter que te vai levar a pensar que ainda estamos na Guerra Fria, – será que estamos? Foi aqui que nasceram revoluções, Czares foram mortos, ditaduras implantadas e onde eram filmadas aquelas paradas militares que faziam tremer o mundo com os seus soldados robots, os mísseis em riste e a brilhante estrela vermelha ao fundo. Foram estas ruas e praças que conheceram de perto Estaline, Lenin, Trotsky, o príncipe anarquista Kroptkin, Doestoyeveski, Kruschev e até o actual líder Putin, gostem deles ou não mas eu sinto vontade de abraçar as pedras da calçada destas ruas.

Tanta história e eventos de mudança mundial ocorreram aqui. Quando virei a esquina de uma rua e olhei para a esquerda reparei que estava na Praça Vermelha, ali, ali estava eu… Caíram-me os queixos ao chão. Fiquei parado durante um bom bocado. Não é tão enorme como parece, não parece tão intimidante (em parte, porque estavam a construir a vila Natal), mas de novo… é a Praça Vermelha!! É aqui que a igreja com as cúpulas às cores e torcidas fica, (Catedral de São Basílio), o Kremlin era já ali atrás daquela grande muralha vermelha e alguns metros à frente é onde está o cadáver embalsamado do Lenin.

20151113_102057

Já fora da grandiosidade czarina do centro, do G.U.M. e da estátua de Pedro, o Grande, a caminho do aeroporto encontras aqueles bairros residenciais, todos iguais, todos com uma aparência miserável e por fim sentes-te no Leste mais profundo que há na Europa. Sinto que um “menino” ocidental como eu não sobrevivia ali por um dia e o pensamento que é daqueles bairros que vem toda a pornografia amadora russa, o pensamento não me abandona a cabeça. Mas não estava eu há 5 minutos atrás ao lado do Kremlin? Isto é estranho, e depois surge outro bairro residencial moderno, em que um apartamento é mais caro que a tua casa, toda a tua familia e ainda mais um rim? Quantos milhões de rublos custará aquilo?

É este desmembramento urbano que acho estranho: o estilo czariano, imperial encontra o vidro, o cimento e a arquitectura moderna só para ser substituído pelo estilo linear do comunismo mais à frente. Não é assim que imagino uma cidade como Moscovo e é isso mesmo que a torna tão especial.

20151113_123704

Mas estou cansado, tão cansado que não consigo perceber se isto é um sonho ou parte da vida real. Tenho que me manter acordado por, pelo menos, mais 6 horas. É esse o meu limite, depois posso dormir no avião durante toda a viagem de nove horas. Contudo, estou a sentir-me bem, o que é surpreendente: um pouco cansado, as pernas a ficarem fracas, mas tirando isso estou fino e pronto para mais uma aventura, desta vez a primeira na Ásia. (É provável que esteja a alucinar, o que é altamente perigoso, mas eu gosto de viver no limite e aceito as consequências de sofrer de alucinações provocadas pelo cansaço em Moscovo).

20151113_111041

20151113_161700