O Que É Preciso Para Uma Road Trip (por Jordan Luke Collier)

May 11, 2016 Textos 0 Comments

Este artigo foi escrito pelo Dan, uma das personagens principais do livro 10 Mil Milhas. O fim-de-semana passado encontramo-nos pela primeira vez em mais de dois anos e este texto é o resultado das nossas conversas. Aqui fica para apreciarem e terem uma visão diferente daquela que vos dei através do livro.

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O dia em que compramos o Canyonero, algures em Brockton, Boston.

Neste fim de semana, pela primeira vez em dois anos e meio, voltei a ver o João.

A última vez que o vi, ele estava a acenar-me adeus a partir do carro e eu no passeio do aeroporto de Los Angeles. Eu estava a precisar de fugir dos Estados Unidos para o México, rápido, antes que a minha cabeça explodisse.

Depois de nove semanas “preso” numa lata de metal, algum tempo sozinho era exactamente aquilo que precisava!

Contudo, a primeira vez que conheci o João foi no Porto, isto numa paragem na minha viagem de autocarro pela Europa. Ao saber que tinha um conhecido ali, depois de ter reparado em alguns dos seus textos no mesmo círculo de desenvolvimento pessoal, entrei em contacto com ele.

Acabei por ficar em casa da família dele, repetimos mais vezes do que era aconselhável as famosas “francesinhas”. (Que para mim é um termo demasiado engraçado, depois de ter estado na Argentina e me lembrar que aí esta palavra é um termo sexual, procurem se estiver interessados). Bebemos vinho do Porto, vinho normal e saímos à noite para os lugares a que os portugueses saem para não falar com ninguém…

A segunda vez que visitei o João, na cidade do Porto, tinha a companhia do nosso amigo Zan, na altura em que ele estava a terminar o seu livro “The Alabaster Girl”. Fomos até Coimbra, o Zan falou numa conferencia, eu falei durante alguns minutos e fizemos mais amigos, – alguns dos quais com quem ainda me mantenho em contacto.

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O João e o Zan na Ribeira do Porto, Abril 2013

Mas a terceira vez que passei por Portugal foi sem duvida a mais memorável. Porque conforme saímos do Aeroporto da Portela, estávamos também a embarcar numa viagem de 9 semanas pela América do Norte.

E agora… Deixo-vos um lista daquilo que precisam para fazer uma Road Trip em condições:

>  Quando partimos não tínhamos metade do dinheiro que precisávamos para levar 4 pessoas através de 21 estados.

> E também não tínhamos sítio para dormir em cerca de 3/4 do caminho.

> De acordo com a lei estatal de 48 estados, não tínhamos a residência legal que era necessária para comprar aquele Jeep Cherokee do Ebay.

> E, tal como nos foi indicado pela policia de patrulha das estradas de Nova York, (que com sorte nos deixou seguir viagem), o nosso balde ferrugento de tracção às quatro rodas não nos ia levar até a Miami… quanto mais até à California.

A verdade é que quando o sistema de aquecimento explodiu algures a meio do Oeste do Texas, a uma temperatura de dois graus negativos, nós também pensamos que não íamos chegar à costa do calor e do surf.

Mas se há algo que 4 homens, um com dois metros e outro perto dos 2 metros e 11 centimetros, conseguem fazer em três meses, um carro e um continente para atravessar, é encontrar um monte de criatividade e criar algumas das melhores memórias das suas vidas.

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Eu nunca irei esquecer as conversas que tívemos, o vinho que bebemos com as raparigas que convidamos e as loucuras cometidas em nome do romance, da aventura e de mais uma história para contar quando tivermos netos.

Ou o vendedor de diamantes cuja casa era um museu, – e no centro de Nova York-, os bares da costa Este em que nos metemos às tantas da madrugada, ou então quando três homens adultos dormiram durante uma semana num colchão de espuma e morriam para sair durante o dia e a noite para as ruas de Manhattan.

Depois, aquela noite perto do Central Park, quando as estrelas se alinharam e cada um de nós passou uma noite, desaparecido, com mulheres exóticas e proibidas…

E no dia seguinte, zero graus, a dormir deprimidos no chão do embaixador dos Couchsurfers de Montreal. (Porque raio alguém vai para lá em Outubro?)

Depois, durante seis dias seguidos, desde o frio de Toronto, até ao Halloween no Kentucky, aos concertos rock em Nashville e a conversas estranhas e pedradas que nunca devíamos ter tido em Atlanta, para passar no dia seguinte a linha invisível da Florida, quando de repente ficou um clima tropical e nós celebramos com halteres, corridas, flexões e donuts no parque de estacionamento de uma estação de serviço

E o êxtase de dormir numa cama a sério num hostel de Miami, sozinhos pela primeira vez, rodeados por um tempo luxuriante e com uma piscina.

Depois houve o Scott, a saltar de carros em andamento no meio do trânsito de South Beach, tudo para ir falar com uma rapariga que caminhava no passeio.  Ele ficou com o contacto dela, mas não me parece que ela teve tempo para responder…

Antes que disso já estávamos a subir a Florida, a passar pelo Alabama, Mississipi e a chegar ao Louisiana. Abastecidos a carne seca de búfalo e iogurte gelado, a fazer viagens nocturnas com raparigas que mal conhecíamos ao Walmart para comprar camas insufláveis para dormir onde quer que houvesse espaço para nos esticarmos.

E os “gurus”, os professores, as famílias, os novos amigos… a incrível generosidade que nos presenteada pelo caminho.

Eu, o Prof. Noam Chomsky e o João.

Eu, o Prof. Noam Chomsky e o João.

Encontramos segredos ao lado da estada, desde buracos com comida crioula até cidade de cowboys, perdidas e abandonadas. Minas de ouro desertas, assombradas e que nos encaravam do outro lado da estrada.

E assim conduzimos com um sorriso de orelha a orelha pela Strip de Las Vega, com o nosso velhinho Jeep, com mais 9 mil milhas em cima das rodas.

Para nós era tudo o mesmo. Serpenteando por Yosemite, onde de alguma maneira bebemos vinho debaixo de um céu congelado em que as estrelas caíam sobre nós sob a forma de neve e falamos dentro de um jacuzzi exterior sobre a nossa filosofia do amor, das pessoas e da brilhante sedução da vida, com os nossos convidados acabados de conhecer.

E mais uma vez, conseguimos que dois de nós ficassem num quarto sem pagar, a dormir no chão ou a partilhar a cama ao estilo militar pela milionésima vez dessa viagem. Tentamos não ser apanhados pela recepcionista e sorriamos com doçura se tal acontecia.

Ritmos africanos no bairro da Mission, em São Francisco. Burritos. Seduções silenciosas. Honestidade. A auto-estrada numero 1 do Pacífico.

Conseguimos chegar à California!

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O dia em que falamos em Harvard!!!

Ao voltar a viver tudo isto enquanto partilhávamos uma cerveja em Oxford, voltei a perceber como AQUELA viagem mudou as nossas vidas. Talvez o exemplo do João seja o mais especial, visto que se tornou um autor publicado aos 24 anos, com a história DESSA viagem.

E para mim, alguém que durante mais de uma década olhou para os Estados Unidos como o inimigo da humanidade, consegui-me apaixonar pelos States, pelas suas mulheres, pelas suas paisagens e depois da viagem voltei lá para mudar radicalmente a maneira como vejo a vida e a mim mesmo.

Porque estou a escrever isto?
Ah sim…
Porque acho que nunca te irás arrepender de fazer uma viagem como esta.
Porque acho que nunca te vais arrepender de criar memórias.

Porque nunca te vais arrepender de fazer o melhor das amizades.

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Texto escrito por Jordan Luke Collier.